terça-feira, 3 de junho de 2014

PARTE UM - Capítulo 1

A inveja é um sentimento que faz você querer ter exatamente o que o outro possui; tomar o que deseja a qualquer custo, pois sua vontade de posse é mortal, na maioria das vezes.
Catarina foi capaz de desestabilizar uma família inteira: ela arruinou a harmonia dos irmãos Alviere e agora, cética, casou-se com um deles, Sanches, e ambiciona sua fortuna e a direção das empresas Alviere, onde já implantara e colecionava parceiros destemidos.
Poderia haver pedras em seu caminho, principalmente Guilherme, seu enteado, mas seu sangue frio não era de ser subestimado.
Catarina não é uma simples invejosa. Ela é ambiciosa. Uma invejosa ambiciosa. Ela sofre de Inveja Aguda.

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A ambição é um sentimento encorajador que leva à ganância uma vez que não se há escrúpulos. A ganância é um sentimento que faz você querer atingir os seus objetivos de qualquer maneira, sem se importar com o desconforto alheio originado de seus planos.
Pedro não é um simples ambicioso. Ele é ganancioso. Um ganancioso apaixonado. Ele faz as outras sofrerem.

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O amor é particular de cada um, e cada pessoa reage e age de uma forma diferente quando se encontra com ele no peito. O amor é um sentimento universal, impiedoso, forte e fraco, bravo e destemido, relutante a calado, desolado e liberto, vivo e mortal.
Alexia não é uma simples apaixonada. Ela sabe amar calada.

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A infelicidade é um sentimento angustiante cujo uma pessoa sente quando não está confortável com seu estado de vida ou insegura com a situação dela.
Guilherme não é um simples infeliz. Ele sofre de um amor platônico. Ele está no fundo do poço. Ele depende de uma pessoa para sorrir.

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A amizade é um sentimento forte e caloroso, muitas vezes mais forte que o próprio amor. É uma relação entre seres quais compartilham afeição e carinho.
Alice não é uma simples amiga. Ela sacrificou o seu amor para curar o seu amigo. Ela é o que todos querem, mas que temem ser.




Parte Um








Destruídos













1
As paredes iam erguendo-se vagarosamente através dos dias. Tijolo a tijolo, parede a parede. A chuva atrapalhou a construção, mas a mansão estava tomando forma e já estava de pé. As enormes janelas brancas foram colocadas e o seu todo se tomou pela branquidão leve e charmosa. De longe dava para ver o enorme lustre negro com diamantes sendo colocado logo no hall, só que fora ocultado pela colossal porta de entrada. Tinha três andares delicadamente trabalhados na frente de um jardim alegre e vivo. A mansão era alimentada pelos móveis clássicos misturados a novos e coloridos, formando um estilo contemporâneo.
Do lado de fora, depois do enorme portão negro que evidenciava a mansão para ser admirada, uma mulher estava de pé, exatamente encarando a construção que estava sendo finalizada. Ela usava sandálias gastas e roupas simples, seu corpo ainda era escultural apesar dos seus quarenta anos, mas seus cabelos louros e curtos estavam emaranhados. Em seu rosto havia uma expressão séria, fixa, mas atrás dele havia um fogo. Um fogo quente e perigoso vindo de um sentimento dilacerador, um sentimento mortal. Ela olhava para a mansão com ambição, e sabia que um dia ela poderia ser dela. Aqueles móveis, a riqueza, a torre de vidro e aquele lustre negro charmoso. O sentimento era Inveja.

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Guilherme não acompanhou muito bem a construção de sua futura casa, mas seus pais estavam focados. Era um sonho antigo de sua mãe que seu pai estava realizando. O pequeno filho único não entendia bem sobre todo aquele processo em seus sete anos. Apenas sabia que, no fim, teria uma luxuosa e grande casa nova, e, no começo, meio, fim e depois do fim, teria a felicidade de seus pais e de toda a sua família.
No início, seu avô viúvo, pai de seu pai, estava na reta final de sua vida. Seu espírito familiar e orgulhoso fez um último pedido: queria morar com a família de seus dois filhos até sua morte. Já a mãe de Guilherme sempre desejara a enorme mansão branca desde que era moça, assim, o pai de Guilherme uniu o útil ao agradável. Agradaria o pai e a esposa. O resultado fora a enorme mansão que tinha a missão de acomodar o patriarca e seus dois filhos, unindo a família Alviere. Mas desde o início das obras, o grande empresário, avô de Guilherme, apresentara uma piora em seu câncer nos pulmões, mas nada o impedira de tomar as decisões da construção junto com suas genras, principalmente do lustre do hall, que deveria representar a força e união da família. Coincidentemente, no exato dia da instalação do lustre, o patriarca falecera.
Foi uma tristeza para todos. Sanches, pai de Guilherme, sempre contava a história de seu avô quando ele ainda era um pequeno empresário duro de roer. Segundo ele, seu avô era do tipo tradicional, que veio da roça, cético e rude, mas fora amolecendo depois que se casou e teve filhos; amolecera por que percebera que o que mais importava era sua família, seja ela como fosse. Seus negócios cresceram e logo se tornara um dos maiores empresários da capital, e sua companhia se tornara em um verdadeiro monstro, que agora estava principalmente nas mãos de seus dois filhos. Guilherme acolhera bem a morte do vô; sua mãe dizia-o que agora ele estava em um lugar bom com a vovó, feliz, e todos seus tios, primos, primas, papai, mamãe e os vovós.
Em sua memória, os planos dos dois irmãos morarem na mansão continuaram, aliás, caberiam diversas famílias ali, e Amanda, mãe de Guilherme, não queria se sentir só. Guilherme gostava de ter os tios e seu primo morando juntos, e a mudança seria divertida: poderia escolher qual seria seu quarto e a maioria de seus móveis.
Guilherme adentrou por fim a mansão de mãos dadas com seus pais. Os móveis já estavam lá, assim, a mansão estava completa. O hall possuía o enorme lustre e a sala de entrada duas enormes escadas de mármore brancas simétricas que levavam a uma sacada com o corredor de alguns quartos. Os móveis da primeira sala eram exclusivamente clássicos, mas a cozinha principal e a sala de jantar misturavam clássico com o moderno. Olhou contente para seu pai e depois para a sua mãe. Ele já estava na casa dos quarenta, e ela, pouco atrás. O homem tinha estatura média, mas parecia gigante para Guilherme. Possuía olhos pequenos e uma barriga que aumentava conforme seu cabelo ia sumindo. O bigode era sua característica marcante. Já sua mãe era alta; possuía uma pele de seda e pálida que casava com seus cabelos lisos e extremamente escuros. Guilherme parecia-se muito com ela, e a achava linda. Sua mãe prometera deixá-lo estrear a piscina com seu primo após que ela acomodasse os empregados e os ajudasse ajeitar as coisas. Uma das mulheres mais ricas da cidade, Amanda tinha ainda em seus pulsos as marcas da vida simples que teve antes de se casar, e isso encantava mais ainda seu esposo.
O garoto correu para o jardim após dar uma ultima olhada no seu quarto; escolhera um no fim do corredor, com janelas para o jardim, que era enorme e já estava bem florido apesar de novo. Ouvira sua mãe falando que a jardineira viria trabalhar nos próximos dias e, inclusive, moraria na casa dos fundos com seu marido, qual seria motorista de seu tio. Ficou esperando seus pais descerem para permitirem que ele entrasse na piscina. Sentado em uma das cadeiras de sol, sentiu a aproximação de alguém. Era seu tio, Haroldo.
- E ai, garotão – disse o tio parando ao seu lado do seu lado. Ele sorria admirando a piscina – Piscinão, ein?
- É... – Guilherme respondeu feliz. Achava seu tio legal. Era bem diferente de seu pai, tanto fisicamente como no jeito. Ele era mais alto, tinha olhos mais escuros e, apesar de ser mais novo e ter mais cabelo, era um pouco grisalho. Era mais estressado que seu pai, mas não deixava de ser bacana às vezes. Ambos eram viciados em trabalho, mas seu tio era mais ausente na família, o que deixava tia Amélia bem triste.
- Está pronto para nadar já? – perguntou ele com um tom de voz que se fala com uma criança.
- Hum-Hum – respondeu o garoto.
- Melhor jeito de se estrear uma casa nova, não é? – ele riu olhando ao redor, como se procurasse alguém – Cuidado com o sol, essa sua pele branca é sensível. Cadê o Pedro?
- Não sei.
- Eu e seu pai temos uma surpresa para vocês, mas depois mostramos. Depois da piscina.
A curiosidade que seu tio deixara passou logo quando Guilherme deu seu primeiro pulo na piscina. A água estava fresca e a piscina parecia um mar. Logo veio Pedro correndo desesperado pulando na piscina. Era para os dois primos terem dado o primeiro pulo juntos, mas Guilherme, com muito anseio, não teve paciência de esperar. Pedro tinha a mesma altura e idade de Guilherme, mas sua pele tinha um tom mais moreno comparada a de Guilherme. Seu cabelo era castanho claro e mais grosso, enquanto que o do primo era negro e bem liso. Os olhos dos dois eram verdes.
Amélia e Amanda ficaram na beira da piscina observando os garotos nadar. Não resistiram e subiram colocar biquínis para poderem tomar sol. A empregada nova veio após alguns minutos com sucos e sanduíches que depositou numa mesa na beira da piscina. Os garotos correram comer, e a empregada lançou um sorrisinho meigo para Guilherme. Ela era baixinha, parecia ter uns vinte anos e tinha um rosto redondo macio.
- Meninos - disse Amanda -, essa é Clotilde, a empregada nova. Se vocês quiserem algo na cozinha, peçam para ela, mas, antes, peçam permissão para mim ou Amélia. Entendido?
Guilherme fez que sim e o sono tomou-lhe o corpo.

Guilherme acordou contente após a ótima noite de sono. Dormira antes do jantar, pois estava muito cansado. De sua janela vinha um som leve e calmo; nem parecia que estava na cidade grande. Levantou-se para se arrumar no banheiro. Quando voltou para o quarto e se sentou na cama, ouviu um barulho vindo do andar debaixo. Eram latidos.
 O garoto partiu em disparada escada abaixo. Não conseguia esconder o sorriso escancarado que tinha na cara. Quando chegou ao andar de baixo, seguiu os latidos até o lado de fora da casa, encontrando seus pais e seus tios ao lado de um cachorro. Segundos depois, Pedro surgira também correndo as costas de Guilherme. Os dois ficaram encarando o cachorro, e seus pais admirando a cara alegre dos filhos. O cão era um boxer de pêlos caramelo. Não tinha o tamanho de um filhote comum, mas era ainda um filhote.
- Surpresa! – disse Haroldo – É todo de vocês.
Sanches soltou a coleira do cachorro, e, mesmo estando ele comportadamente sentado e calmo, quando ouvira o estalo do desfecho em seu pescoço, correra abobado em direção dos meninos e pulou sobre eles. Amélia assustou-se, mas riu após ver que o cachorro lambia o rosto dos garotos enquanto eles riam perdidamente.
- Escolham o nome dele depois. É macho. O cachorro é de vocês dois, então os dois vão escolher um nome que os dois gostem, ok? – disse Amanda.
Os garotos nem mesmo tiraram os pijamas nem tomaram café na hora. Colocaram-se a brincar com o cachorro. Ele era bem comportado e obedecia até mesmo as ordens das crianças, mas era enérgico e alegre. Corria de um lado para o outro como se brincasse de pega-pega com os meninos. Quando cansou-se, bebeu água e deitou ao lado de sua casinha na sombra.
- Que nome vamos dar para ele? – Guilherme disse indo ao lado de Pedro.
- Eu gosto de Calvin.
- Eu gosto de Harry, que nem nos livros que estou lendo.
- Mas eu gosto de Calvin, então vai ser Calvin.
- Mas é para nós dois acharmos um nome legal.
- Eu tenho mais direito de escolher o nome. Meu pai trabalha mais que o seu; ele me disse. – Pedro respondeu se vangloriando – E você escolheu o nome do peixinho que o vovô deu.
- Mas o peixinho era meu. Não tenho culpa se o seu morreu.
- Se o peixinho era seu então o Calvin é meu!
- Não é não! E ele não se chama Calvin!
Pedro desfez sua cara amarrada e mudou para uma contente.
- Ta bom – ele disse. – Eu deixo você escolher o nome dele, mas você vai ter que aceitar fazer uma brincadeira comigo.
- Qual?
- Eu ouvi a empregada falando que fez bolo para o café da tarde que a sua mãe vai dar para as amigas dela e que a gente só ia poder comer depois.
- E daí? – Guilherme perguntou.
- A gente vai brincar de espião. Eu sou o chefe e você meu espião. E a sua missão é entrar na cozinha para pegar o bolo e voltar para cá para comermos. Mas ninguém pode ver você.
- Mas ela disse que a gente não podia comer... – Guilherme disse triste.
- Ela não vai ligar. Ela é nossa empregada; a gente manda nela.
- Então manda ela te dar o bolo.
- Mas ai a brincadeira não vai ter graça! E você não vai poder escolher o nome do cachorro... Você quer escolher, não quer?
- Quero, mas... – ele disse com pesar, mas fora interrompido por Pedro:
- Então entre na brincadeira. Aceita a missão?
- Tudo bem.
Guilherme entrou na cozinha pela porta de fora. Não havia ninguém lá para sua sorte. Procurou sobre os balcões e dentro dos fornos. Subiu num banco para alcançar bem o topo do fogão e lá estava ele. Lindamente fatiado em quadradinhos e deliciosamente coberto com chocolate. Pegou a travessa com dificuldade e quase caiu do banco, mas equilibrou-se. Tinha que sair rápido dali; logo as empregadas viriam começar a preparar o almoço do domingo. Quando estava saindo da cozinha, esbarrou com Clotilde. Seu coração estremeceu; a missão falhou.
- Guilherme... – ela disse perdida – onde você vai com esse bolo?
- Eu vou... – não conseguiu achar uma desculpa.
- Sua mãe disse que você tem que pedir permissão para ela primeiro, e depois pedir para eu cumprir, lembra? – sua voz era calma e serena. – Agora venha aqui que eu vou dar algo para você tomar de café. Peça para mim da próxima vez, ok? Você podia ter se machucado. O bolo estava no alto!
Ela serviu-o com cereal e ficou esperando-o comer; por fim, em segredo, deu-lhe uma fatia de bolo. Na janela, Pedro observava-o com raiva. Não era assim que deveria ser. A empregada deveria ter ficado bravo com ele.
A cozinha foi tomada pelo trabalho de almoço e Guilherme voltou para o quintal. De longe viu Pedro e Amanda ao lado do cachorro.
- Já escolheram o nome dele? – a mãe de Guilherme perguntou a Pedro contente.

- Já sim! O Guilherme que deu a ideia. O nome dele é Calvin.

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